abas abertas

Sem distrações, sem seguidores, sem publi de bet. Só um blog mesmo, como faziam os antigos. Por @viniciusofp.

O hexa viria de qualquer jeito

Fosse como fosse, o resultado da Copa do Mundo 2026 para a seleção brasileira seria algo inédito e esse ineditismo passaria pelo número seis. A conquista da taça seria o hexacampeonato, a derrota seria o sexto torneio seguido sem ganhar. Aconteceu o mais provável e caímos nas oitavas de final para a primeira seleção europeia que enfrentamos no mata-mata, como acontece desde 2002. Com esse resultado, inauguramos o maior jejum de títulos da história do Brasil nas copas. Desde que ganhamos pela primeira vez em 1958, nunca chegamos a ficar seis edições do mundial sem levantar a taça. Como eu disse, a seleção brasileira perder a Copa era o mais provável. Ninguém achou que éramos favoritos e boa parte dos esperançosos depositavam sua fé no lampejo de uma estrela que não brilha mais há anos. Ainda assim, a partir do momento que a bola rola só nos resta torcer. E dessa vez não faltou torcida. Desde o trauma do 7x1, do impeachment e do surgimento do bolsonarismo, esta foi a Copa em que a população mais vestiu a camisa, pendurou bandeirinha e pintou as ruas de verde e amarelo, abraçando os símbolos nacionais. Apesar das bets, da Fifa, de Trump, dos vários casos de jogadores envolvidos em crimes contra mulheres, apesar dos pesares, tentamos manter viva a cultura de sermos o país do futebol, mesmo que vestir a amarelinha ainda cause estranhamento em muita gente. Desde que Gilmar, Bellini, Didi, Zagallo, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, De Sordi, Orlando, Zito, Vavá e companhia colocaram o Brasil no topo do futebol mundial pela primeira vez em 1958, sempre fomos excepcionais nesse esporte. Vieram os títulos de 1962, 1970, 1994 e 2002 e a cada ano o Brasil manteve seu destaque, sendo respeitado e admirado no planeta bola. Nossos jogadores exportaram o futebol para novas fronteiras e foram exportados para fora daqui. Durante décadas foi uma das principais formas de projeção nacional, através do futebol demos um motivo para o mundo conhecer e reconhecer o nosso país. Pode parecer banal à primeira vista, mas isso tem muita importância. Estamos longe de viver em um mundo em que toda a população tenha sólidos conhecimentos em geopolítica. Quando ouvimos falar em outros países, sobre alguns sabemos alguma coisa, sobre muitos sabemos quase nada e às vezes não sabemos nem que tal país existe. Nossa tendência é construir uma ideia estereotipada, uma caricatura das outras nações com base nas informações que temos — que nem sempre são verdadeiras. Se eu pedir para você pensar sobre o que sabe do Afeganistão, eu duvido que não surja a palavra "Talibã", talvez ao pensar na Austrália você pense em "canguru" e quem sabe sobre a Inglaterra venha algo a respeito da família real. Quanto menos informações você tiver, mais simplista vai ser o retrato que você poderá pintar. Pra quem não sabe muito da gente, o Brasil é o país do samba e do futebol. Podemos nos incomodar com isso sob certos aspectos e sabemos que isso carrega muitas contradições, mas no saldo geral é uma fama muito positiva para se ter. Nossos turistas costumam ser bem recebidos na maioria dos países. Em toda edição da Copa vemos populações de lugares bastante distantes, como Palestina e Bangladesh, vestindo nossa camisa e torcendo por nós. Mas não é só festa: acordos comerciais, políticas migratórias, programas de cooperação científica e muitas outras coisas podem ser favorecidas nas relações do Brasil com outros países por causa da boa impressão que estrangeiros têm da gente. O futebol é parte importante do nosso soft power e com a "hexa-eliminação" esse poder está em risco. São 24 anos sem ganhar a Copa e há no mínimo 12 anos (desde o 7x1) a nossa excepcionalidade começou a ser questionada. Tem gente adulta, que pode beber, dirigir e votar (espero que não ao mesmo tempo), que nunca viu o Brasil ganhar a Copa do Mundo. Com o tempo, as torcidas estrangeiras que se pintavam de verde e amarelo adotam também as cores da França, da Argentina... Tem gente falando que o Messi é maior que o Pelé! Em tempos de turbulência na política internacional, a perda de um cartão de visitas positivo como tem sido o futebol brasileiro há quase 70 anos é algo a se preocupar. Se deixarmos de ser associados ao futebol, ao samba e a outras referências positivas, outras imagens podem ocupar esse espaço — e nem sempre serão boas. Recentemente grupos criminosos brasileiros foram classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. Nós não queremos que seja algo assim que venha à cabeça de uma pessoa de outro país quando pensar no Brasil, certo? Imagina só se chegarmos ao dia em que no lugar de "samba" e "futebol", surjam termos como "Comando Vermelho" ou "PCC"? Temos muitos problemas para resolver como nação, é verdade. Mas, gostemos ou não, arrumar a seleção brasileira é uma frente de batalha da qual não é estratégico abdicar. Não é só nostalgia por ter sido um menino que viu a seleção chegar à final na França e na Copa seguinte ser campeã contra a Alemanha. Mesmo pra quem detesta futebol, existem bons motivos para desejar que a seleção volte a vencer e supere esses seis ciclos de jejum marcados como a era de um menino que nunca foi e nunca será rei. No ano que vem, a Copa do Mundo Feminina será disputada aqui. Espero que ela seja uma oportunidade para resgatar esse orgulho nacional e enfrentar as contradições que fazem com que o futebol masculino seja, para muita gente, algo difícil de gostar.

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Vinícius Pereira. 2026.
www.viniciusofp.com.br